Discos para descobrir em casa – 'Gil-Chico-Veloso por Claudete Soares', Claudette Soares, 1968

Capa do disco 'Gil-Chico-Veloso por Claudete Soares', de Claudette Soares Torok ♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Gil-Chico-Veloso por Claudete Soares, Claudette Soares, 1968 ♪ Claudette Soares resolveu inventar moda em 1968.

Tirou um “l” do nome artístico e decidiu gravar somente músicas de Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil no quinto álbum da discografia que tinha sido iniciada pela cantora em 1954 com single de 78 rotações por minuto.

Compositores projetados nacionalmente nas plataformas dos festivais da segunda metade dos rebeldes anos 1960, Caetano, Gil e Chico já começavam a entrar na mira da censura naquele ano de 1968 – o que gerou temores na gravadora Philips quando Claudette levou a ideia do disco a João Araújo (1935 – 2013), o executivo da indústria fonográfica que ajudara a cantora a se desembaraçar do contrato com a gravadora Mocambo – por onde a artista lançara os dois primeiros álbuns, Claudette é dona da bossa (1964) e Claudette Soares (1965) – para levá-la para a Philips.

Contudo, o álbum Gil-Chico-Veloso por Claudete Soares foi gravado e lançado sem sobressaltos, tendo se tornado ponto fora da curva na trajetória fonográfica dessa cantora nascida em 31 de outubro de 1937, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), e batizada com o nome de Claudette Colbert Soares.

Dona de si, da bossa e do dom desde muito cedo, Claudette Soares entrara em cena aos 10 anos de idade, no programa de calouros Papel carbono, da Rádio Nacional, para imitar Emilinha Borba (1923 – 2005) no canto da rumba Escandalosa (Moacyr Silva e Djalma Esteves, 1947).

Descontada a travessura infanto-juvenil, Claudette Soares iniciou a carreira para valer nos anos 1950, década em que foi coroada Princesinha do baião pelo próprio rei do gênero, Luiz Gonzaga (1912 – 1989).

Só que Claudette abriu mão dessa nobreza nordestina porque percebeu que a maciez do próprio canto se alinhava mais com a modernidade da bossa antecipada por cantores como Dick Farney (1921 – 1987), com quem Claudette (não por acaso) viria a gravar disco nos anos 1970, década em que a discografia da cantora adquiriu tonalidade mais romântica no rastro da explosão da gravação original da canção De tanto amor (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), lançada pela artista em 1971.

Com a intenção de se dissociar do baião, Claudette Soares foi então procurar a própria turma.

E a encontrou entre a geração musical dos anos 1960 que levou adiante o legado da bossa nova.

Até por isso um disco com músicas de Caetano, Chico e Gil soou fora do tom em 1968 na obra de Claudette Soares.

Por mais que os três compositores também tenham bebido avidamente da fonte da bossa, eles transitavam por outros universos musicais, sendo que Caetano e Gil ainda estavam às voltas com a Tropicália naquele ano de 1968.

Do alto do 1,49 metro que sempre fez dela uma das “menores” cantoras do Brasil, Claudette bancou a ideia do disco, gravado com produção musical orquestrada por Manoel Barenbein e com arranjos divididos entre Rogério Duprat (1932 – 2006), Julio Medaglia e César Camargo Mariano, pianista que já tinha trabalhado no primeiro álbum da cantora quando ainda dava os primeiros passos profissionais como músico e arranjador.

De cada um dos três compositores, Claudette Soares escolheu – sem qualquer traço de obviedade – quatro músicas, sendo que, na disposição das 12 faixas do álbum Gil-Chico-Veloso por Claudete Soares, Gil ficou com cinco músicas porque uma das quatro composições de Caetano, Lia (1968), também trouxe a assinatura de Gil e curiosamente nunca foi gravada por nenhum dos compositores.

Com citações da ciranda de Lia de Itamaracá, a faixa Lia ostentou o complexo aparato orquestral típico da obra de Julio Medaglia como arranjador.

Único arranjador creditado na magra ficha técnica do LP, talvez por ser o maestro oficial da Tropicália, Rogério Duprat teve impressa a forte assinatura orquestral do artista nos arranjos de músicas como Deus vos salve esta casa santa (1968), parceria de Caetano com Torquato Neto (1944 – 1972), poeta da Tropicália e autor de um dos três avalizadores textos escritos para a contracapa do LP, sendo que os outros dois foram redigidos pelo próprio Duprat e pelo jornalista Randal Juliano (1925 – 2006).

“Claudette sempre foi assim, sempre esteve na linha de frente”, ressaltou Torquato no texto dele para a contracapa.

Torquato Neto também foi o parceiro de Gil na tropicalista Domingou (1968), música gravada por Claudette e por Gil naquele mesmo ano de 1968 e desde então nunca mais alvo de registro fonográfico.

De Caetano, Claudette também gravou o samba Remelexo (1967) – quase jogado dentro da roda baiana – e Clara (1968), música interpretada pela cantora com Gil.

Gil também figurou com convidado de Claudette no canto de Iemanjá (1966), única parceria do compositor com o ator Othon Bastos.

Iemanjá pareceu entrar na onda marítima e musical de Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1965), composição que projetara Elis Regina (1945 – 1982) em festival.

Ao abordar o cancioneiro de Gil, Claudette acertou o passo ágil do Frevo rasgado (1968) – parceria do compositor Bruno Ferreira – e caiu bem no samba Mancada (1967) com a habitual leveza vocal e com piano de César Camargo Mariano, arranjador dessa faixa cheia de bossa.

Da obra de Chico Buarque, Claudette Soares gravou os sambas Desencontro (1968) – também com a bossa do piano de Mariano – e Januária (1968), este adornado com o contracanto de grupo vocal masculino não creditado na ficha técnica.

Outro samba, Bandolim, descoberto no baú de Chico pelo produtor Manoel Barenbein, foi gravado em clima de sambalanço, com bossa e com toque de choro no arranjo criado por César Camargo Mariano e tocado pelo pianista com o baixista Sebastião Oliveira da Paz (o virtuoso Sabá, morto em 2010) e o baterista Toninho Pinheiro, músicos que formavam com Mariano o grupo Som 3.

O curioso é que o samba-choro Bandolim jamais foi gravado por Chico e por nenhum outro intérprete, tendo permanecido esquecido neste álbum de Claudette Soares cuja capa deveria trazer foto da cantora com os compositores se contratempos nas agendas dos artistas não tivessem impedido a feitura da foto.

Completando o lote mais melancólico de músicas de Chico abordadas pela cantora no disco, Lua cheia – parceria do compositor com Toquinho – foi iluminada em andamento evocativo das marchas-rancho e em clima de seresta no arranjo do maestro Julio Medaglia.

Recebido com discrição pelo público da artista, o álbum Gil-Chico-Veloso por Claudete Soares ganhou status de disco cult com o tempo por ter marcado o encontro de Claudette Soares com os maestros Rogério Duprat e Julio Medaglia em incursões ousadas pelas obras de três compositores fundamentais na história da MPB. Foram abordagens feitas com a modernidade dessa cantora cheia de bossa que, como Torquato Neto observou no texto da contracapa do LP (nunca reeditado em CD no Brasil), atravessou os anos 1960 na linha de frente da música brasileira, mas que, em 1969, parou de inventar moda com a grafia de Claudette e reincorporou definitivamente o “l” ao nome artístico.

Categoria:Pop & Arte